sexta-feira, 11 de setembro de 2009

The Meaning of OA

And now for something completely different...

Descobri o sentido da vida da OA: ela serve para tornar todo o Estagiário num bom Advogado. Não é, porém, nem o que se possa pensar nem o que se escreve nesses regulamentos infindáveis. Esqueçam a “formação adequada ao exercício da advocacia, de modo a que esta seja desempenhada por forma competente e responsável, designadamente nas suas vertentes técnica e deontológica.” O que se pretende é que o Estagiário tome bem consciência das arbitrariedades para que as não inflija aos outros.

Começa pela regulamentação do estágio. Que é um longo período já se sabe. Ainda assim, haverá limites. Há um Regulamento de Inscrição de Advogados e Advogados Estagiários, um Regulamento Geral de Avaliação, um Regulamento Nacional de Estágio. Há uma Comissão Nacional de Avaliação, uma Comissão Nacional de Estágio e Formação, um Centro de Formação. Quem faz o quê, quando, a quem é tarefa a exigir muita paciência.

Ora, como é senso comum, com o mal dos outros posso eu bem. Sabendo bem disso, a OA fez sua missão garantir que o jovem licenciado adquira experiência. Não tanto técnica, mas humanamente.

- Senhor doutor, estou desgraçado! O meu vizinho tirou o marco do terreno! Que hei-de fazer à minha vida?!

Ora, o licenciado que não tivesse passado pela OA diria, enfadado, que ia fazer um requerimento, que logo se veria.
Mas o privilegiado que sobreviveu aos dois anos de estágio na OA simpatizará com a sua dor, com o seu desespero. Lembrar-se-á daquela vez em que se enganaram na soma que fizeram das cotações no seu exame. E daquela outra em que os três correctores da mesma prova tinham cinco soluções diferentes para a mesma pergunta. E empenhar-se-á na resolução daquela questão.

- Ai Senhor Doutor, que a minha irmã chamou-me de tudo, no meio da rua! Aquela...

E antes de o Senhor Doutor pensar que nada daquilo lhe interessa, antes de atalhar para saber os pormenores que precisa para a sua Petição Inicial, lembrar-se-á daquela vez em que a Senhora na OA lhe disse que não podia devolver o dinheiro daquela acção de formação a que não pôde assistir. E do encolher e ombros quando lhe explicou que as classificações seriam publicadas na 6ª feira. Ou na 3ª. Ou um dia destes. E prestará atenção ao caso das irmãs desavindas.
A OA também nos faz homens, como a tropa.

“E então odiei. Pela primeira vez na vida odiei me cerrei dentro meu ódio impotente e infeliz, e aprendi o sentido do desespero e da morte. Pela primeira vez eu medi a minha distância do mundo que me havia de ficar para sempre distante.”
Vergílio Ferreira, Manhã Submersa

Ir à Sorte

Há uns anos, o serviço militar era obrigatório. Os rapazes da terra perfilavam-se em frente à Junta de Freguesia, e o verdadeiro presidente escrevia numa folhinha o nome de cada um.

- Meu rico filho! Agora és um homem!

E o mancebo esperava ir às sortes. Esperava não ficar apto. Inventava um pé chato, um problema de vista, uma deficiência nos ouvidos.

- Ó senhor, sou fraco dos intestinos!

Quando se abria a portinha de onde saiam os senhores doutores capitães com a listinha na mão, saber que estava de perfeita saúde era motivo para adoecer imediatamente. Seguir-se-iam dois anos de serviço militar. Parece que depois diminuíram para seis meses.

Longe vai o tempo em que ir à tropa servia para sair da terrinha. Ou para terminar a quarta classe. Ou para tirar a carta de condução. Ir à tropa era já, nos últimos anos de obrigatoriedade, um fardo imenso. Dois anos, ou seis meses, em que fica a vida suspensa. Enquanto se vai e volta. Enquanto se fazem e desfazem as malas. Enquanto se ouvem e cumprem ordens.

E se o desgraçado do mancebo estiver a estudar, não há problema. Os senhores doutores capitães esperam que ele termine. E depois, sim, vai à tropa. Quando devia fazer-se à vida, arranjar emprego, sair de casa dos pais, poder levar a namorada a uma casa sua, sem medo que os pais cheguem mais cedo do jantar em casa dos primos afastados, o moço tem que parar tudo porque... vai à tropa.

- Pela pátria, marchar, marchar!

Ora, depois de se ter concluído que a pátria vive bem sem este sacrifício dos seus heróis, a nossa sacrossanta OA mantém a convicção da sua própria necessidade. Repare-se que, de dois anos, o serviço militar passou para seis meses. O regulamento nacional de estágio aumentou recentemente o período de estágio de dezoito para vinte e quatro meses.

- Pela OA, pagar, pagar!

Terminado o curso de cinco anos, quando o jovem licenciado se devia fazer à vida, arranjar emprego, sair de casa dos pais, poder levar a namorada a uma casa sua, sem medo que os pais cheguem mais cedo do jantar em casa dos primos afastados, o moço tem que parar tudo porque... vai estagiar.

- Meu rico filho, nunca mais és um homem!

Ainda agora como era dantes: sem ter a situação militar resolvida não consegue emprego; sem ter o estágio, não pode ser Advogado. Espera o estagiário que saiam os senhores doutores da OA com as folhinhas na mão, com os resultados de um desses muitos exames que se fazem por lá. Quer saber se está apto. Se já foi suficiente. Se já poderá iniciar a sua vida.

Pouco a pouco a letífera Doença
Dirige para mim trémulos passos;
Eis seus caídos, macilentos braços,
Eis a sua terrífica presença.
Virá pronunciar final sentença,
Em meu rosto cravando os olhos baços,
Virá romper-me à vida os ténues laços
A fouce, contra a qual não há defensa.
Oh!, vem, deidade horrenda, irmã da Morte,
Vem, que esta calma, avezada a mil conflitos,
Não se assombra do teu, bem que mais forte.
Mas ah!, mandando ao Céu meus ais contritos,
Espero que primeiro que o teu corte
Me acabe viva dor dos meus delitos.
Bocage, Sonetos

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Alea Jacta Est!

Supondo que um curso superior tem a duração de cinco anos, e que são necessários 12 anos de estudo anteriores, até à obtenção do curso passaram 17 anos. De estudo e avaliações.
Há alguns anos, só passava para o ano seguinte quem tinha aproveitamento no ano anterior. Parece que ainda assim é, mas há outras possibilidades. Nem se diz já passar ou reprovar. Menos ainda chumbar. Agora a criança fica retida.


Há mais burocracia para reter o pequeno do que para lhe permitir transitar de ano. É preciso explicar - com muitos relatórios e reuniões e avaliações - a toda a gente – aos pais, aos outros professores, ao director, ao psicólogo da escola – porque não pode a criança acompanhar os colegas.- Capaz de ficar traumatizado, ou isso!Em qualquer caso, os Senhores Professores do ano seguinte aceitam a avaliação que fizeram os Senhores Professores do ano anterior.No 12º ano, os Senhores Finalistas fazem os seus exames, ficam com o ensino secundário concluído, pegam nos resultados e candidatam-se às vagas do ensino superior. Há uma formas de distribuir os meninos pelos cursos, e os admitidos vão a correr à faculdade formalizar a sua candidatura. Os Senhores da Secretaria olham para os números que lhes apresentam, e acreditam. Olham com emoção e uma pontinha de orgulho para o recém caloiro, e com uma lagriminha ao canto do olho, pensa:- Meu bravo! Média de 9,7!Quando termina a faculdade, o finalista pega outra vez nos números que conseguiu e vai procurar emprego. E o potencial patrão também acredita.- 14 naquela faculdade é um bom resultado! Teremos muito gosto em tê-lo connosco!Mas se termina o curso de Direito, a história é diferente. Para além do patrão, tem que apresentar os resultados à OA. Se o patrão fica convencido, não é tão fácil com a OA.- Então o Senhor Doutor tem média de 14? Deve ser... Vamos ter que fazer um examezinho, sabe? Senhor Doutor!Para além da desconfiança – tão feio desconfiar assim das pessoas! -, há outro problema. Bom, pode haver! Nos exames que o aluno vai fazendo, se são detectados erros ou enganos há sempre alguma entidade para a qual se pode recorrer. Outro professor da escola, uma comissão nacional de avaliação, o Ministério da Educação. Fecha-se a escola a cadeado, chamam-se as televisões, escrevem-se cartazes e ensaiam-se palavras de ordem.Porém, se (quando) houver (há) um engano nos exames da OA, a quem se pode o Estagiário queixar? Quem guarda o Guarda? Quem pode fiscalizar um organismo independente e autónomo como a OA?Artigo 2º (Estatuto da Ordem dos Advogados)2 - A Ordem dos Advogados é independente dos órgãos do Estado, sendo livre e autónoma nas suas regras.Mais: quem tem algum interesse nisso? O acesso à profissão depende desta coisa. Ninguém tutela esta aberração. O estudante universitário tem direitos, o Advogado tem direitos. O Estagiário tem deveres.Os mesmos Senhores Doutores que fazem os exames, analisam se neles há erros ou não. E sempre a doutrina se divide. Já aconteceu em exames anteriores: há um erro. Uns dizem que sim, outros que não. Os que dizem que sim, demitem-se. Os que dizem que não, mantêm-se. E os Estagiários que foram prejudicados continuam a sê-lo. Esperam pela próxima oportunidade para repetir o exame. Porque a OA é nossa amiga, e nos dá essa possibilidade.
Alea jacta est.

Oficiando

Se fossem permitidos pactos de quota litis, talvez não fosse necessário o patrocínio oficioso. Ou, digo eu, seria um recurso muito menos utilizado.
Quem julgasse ter um direito, apresentá-lo-ia ao Advogado que escolhesse. O Senhor Doutor lhe diria se a sua pretensão é tutelada pelo Direito. Se o não entendesse, essa seria uma causa que não congestionaria o Tribunal. Se tivesse fundamento, o pagamento seria feito como entendessem ambos. No início, ou no final. Se os honorários são pagos pelo cliente com o dinheiro de um depósito a prazo mobilizado para a ocasião, ou com o dinheiro recebido da indemnização que o Advogado conseguiu no Tribunal, não devia ser relevante.
De resto, nada impede que o Advogado fixe um valor que só quer receber no final da demanda. E que, se o cliente perder, não lhe exija o pagamento. Desde que se não chame quota litis...
A existir patrocínio oficioso, não concordo que sejam os Estagiários a assegurá-lo. Se se entende que é necessário garantir que todos tenham o direito a levar ao Tribunal as suas disputas, e que isso passa pela obrigação de o Estado suportar os encargos com a taxa de justiça e com os honorários do defensor oficioso, isso deve ser assumido claramente.
Os Advogados que o entendam, e apenas esses – e apenas Advogados e não Estagiários -, disponibilizam-se para serem nomeados oficiosamente. E devem sê-lo a título exclusivo. Para isso, porém, teria que se garantir o atempado pagamento da sua intervenção. O Advogado, como qualquer profissional, depende do seu trabalho. Aliás, o Estatuto da OA, no artigo 98º, número 2, permite que o Advogado recuse tratar o assunto se o cliente não entregar a provisão solicitada. Se a Justiça for a mesma e igual para todos, incluindo todos os intervenientes, o Advogado Estagiário seria pago em tempo.
Nem se diga que apenas os maus aceitariam o trabalho oficioso.
- A gente já sabe! Os bons vão para os grandes escritórios e para as empresas!
Como em qualquer profissão, é preciso criar condições atractivas o suficiente para que quem tem vocação possa exercê-la. Da mesma forma que há médicos públicos e privados, poderia haver Advogados públicos e privados. Em qualquer caso, nunca a qualidade do serviço está assegurada.
- Ouvi dizer que uma grande sociedade, muito conceituada, muito boa, deixou passar um prazo. Que eu não vi, mas ouvi dizer!
Sempre existe a Sacrossanta OA, disposta a exercer o seu poder disciplinar sobre o Advogado transviado. A zurzir o chicote da ética sobre as orelhas do Advogado atrevido.
- Ah, mas a gente sabe como são os funcionários públicos não trabalham. E tal.
Não seria o Advogado um funcionário público. Apenas um Advogado, independente por natureza na sua acção, a prestar serviços aos cidadãos. Por acaso, é pago pelo Estado. Apenas por acaso.
Fixa-se o número de Advogados necessário, apresentam-se os candidatos, seleccionam-se os que forem precisos. Como, de resto, acontece com o acesso à magistratura. Ou à Polícia Judiciária. Os licenciados em Direito têm várias saídas profissionais à sua disposição, já sabemos.
E não concordo com este modelo de patrocínio oficioso por dois motivos: pelos Estagiários e pelos oficiosos.
Pelos Estagiários, porque a defesa oficiosa é um fardo sem contrapartida. Gastam tempo a preparar um processo, muitas vezes sem qualquer contacto nem resposta pelo seu oficioso. O seu trabalho não é avaliado nem valorado para efeitos do estágio.Se lhe é reconhecida competência técnica, não deveria estar ainda a estagiar. Se se espera que aprenda com os seus erros, alguém devia avisar o Senhor Oficioso para que desculpe qualquer coisinha.
Se o Estagiário trabalha no escritório com essas matérias, não lhe acrescenta nada. Se não trata desses assuntos, não lhe faz falta esta prática.
Que motivação terá o Estagiário para preparar a defesa de um arguido que não lhe responde, cujo julgamento será dois anos depois, e cujo pagamento demorará três anos?
- Mas têm que ser responsáveis! E participar na administração da Justiça! Ou isso!
As virtudes da honestidade, probidade, rectidão, lealdade, cortesia e sinceridade são obrigações profissionais, usando as palavras do artigo 83º, número 2 do Estatuto da OA. Pois. E por isso, obrigados – pela consciência ou o que for – lá vão fazendo as defesas oficiosas.Pelos oficiosos, porque se tem vulgarizado a ideia de que a defesa oficiosa não tem qualidade.
E diz o defensor oficioso confrontado pelo Juiz com a ausência do arguido:
- Meritíssimo Juiz, tem razão! Não há desculpa para a ausência do arguido! Veja lá se não pode emitir um mandado de detenção para o obrigar a estar presente!
Merecem ter defensores motivados. Que gostem do que estão a fazer. Que assumam a defesa oficiosa como a sua profissão. Como a sua vocação. Não fica bem aos Senhores Que Mandam Nisto usarem os Estagiários para fingir que o acesso aos tribunais está garantido. E que é um direito fundamental.

Nova Ordem

Li algures, num desses documentos que os órgãos da OA aprovam, que o Estágio serve para permitir uma aprendizagem prática da Advocacia. Porém, na primeira fase de estágio, a OA obriga à presença do Estagiário numa série de aulas. Teóricas. Durante seis meses. Porquê seis meses? Bom, e porque não?
Nos demais meses, na fase complementar, o Estagiário depende completamente do escritório onde estiver.
À saída da faculdade, esta OA não tem nada para oferecer ao licenciado. Ele que vá procurar um escritório. Se quiser. Nesse escritório que o albergue, o Estagiário fará o que lhe mandarem. Como os Senhores da OA talvez saibam – é uma questão prática, mas talvez saibam mesmo assim – os escritórios tendem, cada vez mais, a especializar-se, a ter departamentos ou Advogados mais ligados a uma das áreas do Direito. O Estagiário é colocada numa delas. E nelas trabalha. O patrono dirá se trabalha bem o suficiente. Porque com excepção do salário – que, se existir, nem se pode chamar isso: são ajudas de custo, que ajudam pouco - a relação é pouco menos que laboral.
- Mas não pode! O Advogado não pode ter um contrato de trabalho! Porque é independente, e só faz o que a consciência lhe permite! Pois.
Se gostarem do seu trabalho fica, se não vai embora. Chamar-se-ia justa causa.
- Mas não pode! O Advogado não pode ter um contrato de trabalho! Porque é independente, e só faz o...Pois.
Depois de trabalhar no escritório durante os intermináveis, injustificáveis, incompreensíveis, intoleráveis, abomináveis dois anos de estágio (parece que já são três!), sob as ordens e direcção do seu patrono,
[- Mas não pode! O Advogado não pode ter um contrato de trabalho! Porque é independente...Pois.]
vem a OA avaliar. Como um Agente da Autoridade tomando conta da ocorrência.- Trabalhou só com o direito do trabalho, heim? Ora, vamos lá ver isso! E os documentos da viatura, por favor!
A relação parece um contrato de trabalho temporário. Neste caso, vem um e manda; vem outro e avalia. Como qualquer call center.
Gostaria, a este propósito, sugerir a criação de uma nova Ordem: a Ordem dos Operadores de Telemarketing. É uma ideia inovadora, original, bem sei, mas que já se justifica. Para mais, havendo tantos licenciados em Direito com esta actividade, suponho que se sintam mal representados.
Já pensei no seu funcionamento: o “telemarketingueiro” procura a sua empresa para trabalhar, mas depois – notem bem! – tem que se inscrever na OOT. E mais: tem que pagar um montante simbólico. Uma jóia! Tem que entregar o correspondente a dois salários, daqueles que só vai receber lá mais para a frente.
- Meus caros, isto é um investimento na carreira! Quem quer, quer! Há outras saídas profissionais disponíveis. Vão lá ser operadores de caixa. Sem uma Ordem, boa sorte!
E depois, ainda vai a OOT fazer uns exames! Só porque sim. Ah, é verdade: e têm que pagar nova jóia!
- É um investimento!
Ora, a avaliação deveria ser sobre matérias trabalhadas. Ao patrono interessa que saiba Direito Comercial, mas a OA não o deixará o Estagiário trabalhar como Advogado se ele não souber como deve levar a tribunal uma testemunha com residência fora da comarca num julgamento cível.

É uma obrigação que não deixa de causar alguma estranheza. Vindo de quem nada fez para preparar o Estagiário, qualquer exigência é um abuso.

No Divã

A OA anda deprimida. Não aparece em todos os serviços noticiosos, não suscita polémicas nos órgãos de comunicação. Mesmo correndo um sério risco de ser já o próximo bastonário, atrevo-me:
- A OA parece um 727 a voar sem piloto!
A OA não anda bem! Ora, como não tem amigos, sugiro que consulte um psicólogo. Só para a gente saber com o que conta, que Diabo! Aparentemente, o comportamento da OA não faz sentido. A um olhar menos atento, poder-se-ia pensar que as suas acções são comandadas pela maldade, pelo simples gosto de causar prejuízo. Mas tentemos contextualizar. Talvez seja possível criar alguma empatia com a OA.
O problema é que a OA não sabe acabar. Não é só acabar-se. Acabar os assuntos em geral.
Não saber terminar é muito frequente. Acontece a todos quando nos despedimos sete vezes antes de desligarmos a chamada.
- Então adeus! Beijinhos! Eu depois ligo-te! Ou dou-te um toque! Até logo! Beijinho! Tchautchautchautchaut!
Acontece a realizadores de cinema, perdidos em trilogias, e segundas partes, e continuações dos seus filmes. Ou quando prolongam o filme para além do fim da sua história. Como no Titanic, realizado por James Cameron. No final, passamos a odiar a simpática velhinha, sobrevivente da tragédia... E tudo e tudo. A velha nem dorme, nem salta do navio, nem atira a porcaria da jóia borda fora.
Acontece a escritores que não sabem como despedir-se das suas personagens. Não é tão fácil quanto alguns o fazem parecer.
- De modo que estás sem mulher...
Basílio teve um sorriso resignado. E, depois de um silêncio, dando um forte raspão no chão com a bengala:
- Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!
E foram tomar xerez à Taverna Inglesa.
Eça de Queirós, O Primo Basílio
Acontece a ilustríssimos professores quando, por exemplo, tentam explicar a diferença entre omissões relevantes ou não, para efeitos de responsabilidade penal.

- Imaginem: vemos uma pessoa a afogar-se. Qual é a nossa responsabilidade se nada fizermos, se não lhe atirarmos uma bóia? E se não estava mais ninguém que pudesse atirar a bóia? E se atirarmos a bóia e, quando o sujeito está quase a agarrá-la, nós puxamos a bóia? E se a bóia estivesse mesmo ao seu alcance quando tiramos a bóia? Portanto, atiramos a bóia, puxamos a bóia, tiramos a bóia. Ou deixamos ficar a bóia. E estendemos a bóia, e voltamos a tirar a bóia. E agarramos a bóia.
Esta dificuldade em terminar tudo, na OA, tem diversas manifestações. Os senhores entendidos no assunto decidiram que eram necessários cinco anos para aprender o essencial sobre leis. Não mais. Não menos. Recentemente, outros senhores entendidos decidiram que, afinal, três bastariam. Não mais. Não menos.
Suponho (espero) que o plano curricular seja decidido de forma semelhante. Uma cadeira é essencial. Uma deve ser anual. Outra semestral. Não mais. Não menos. O Senhor Professor Doutor há-de ter um método semelhante para ocupar o seu tempo.
- 20 horas para estudar a evolução do instituto no direito romano, 4 horas para estudar a lei em vigor, 2, se houver tempo, para a proposta de lei que se prepara. Não mais. Não menos.
Depois de toda esta gente a ponderar, a estudar, vêm os Senhores da OA, com a sua argumentação característica, baralhar tudo.
- Ah, e tal! A gente esteve para aqui a pensar, e coiso! E se for como a gente pensa... A coisa... Portanto, entendemos que é melhor! E assim! Decidimos isto! E tudo e tudo!
Decidem que a faculdade não chegou. Decidem que os exames não chegaram. Só mais um. Como uma conversa que nunca acaba, como se ficasse sempre qualquer coisa por dizer. Ou perguntar.
- Qual o último dia do prazo?
- E qual o terceiro dia?
- E qual o quinto?
- E qual o décimo?
- Só mais uma, vá lá: qual o segundo?
A OA sabe que assim que for possível todos vão abandoná-la. E agarra-se enquanto pode a essa presença. É medo de estar só. É um querer companhia. É um querer ser amada. É um querer partilhar com os outros. É um querer iluminar a vida dos outros. Está sozinha. E fará o que puder para nos manter junto dela. Nem que tenha que inventar mais exames, mais aulas, mais intervenções, mais um ano de estágio.
Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada que Job
A caminhar na via da amargura!
Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade

Dixi!

Sempre os poetas souberam cantar o amor platónico. Perdem-se de amores pela alvura da pele amada, pela delicadeza de movimentos, pela transparência do olhar. Um amor que não chega nunca a ser concretizado, tão mais perfeito quanto inacessível.Ora, deve ser este amor que sinto também pela OA. É que só pode ser amor, esta enxurrada de sentimentos que me percorre quando penso nela.

Saí da faculdade à procura da minha primeira OA. Com vontade de agradar. Com desejo de ser aceite. Com disposição para fazer o que lhe for preciso.
Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado,
E dos tratos humanos esquecido.
Camões, Rimas
Não foi correspondida esta pressa. Não foi atendida esta urgência, que tudo quanto é bom tem que ser merecido. Mantive-me, pobre tolo, enganado enquanto pude. Não mostrou a OA qualquer interesse em mim, quis quebrar-me o entusiasmo. Não aceitou a responsabilidade de ser tão desejada. Manteve-se sempre a uma distância de segurança.

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!E ai Deus,
se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!
Martim Codax
E quando, por fim, se revela, se aproxima, dificulta a conquista. Não dá confiança. Que dê provas, que me esforce, que tente.

A minha vida é uma cena triste,
Dessas que se fazem numa praça
Por causa duma mulher...
Todos passam, todos olham
E sorriem da paixão...
Mas o namorado insiste:
- Minha Senhora, responda:
Sim ou não!
Sim ou não!
[...]
E o pobre pobre-diabo
Leva a mão ao coração
E diz:- Minha Senhora,
Mate-me de uma vez...
Miguel Torga, O Outro Livro de Job
E depois de tanta hesitação, anos depois, o meu amor esmoreceu. O entusiasmo morreu. O desejo desapareceu. Quando a OA finalmente decidir, aceitar ou recusar-me, já não me importo. Estou cansado. Tenho que sair mais, conhecer outras OAs.
O dia em que eu nasci, moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a côr perdida,
Cuidem que o mundo se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!
Camões, Rimas