“Se ordenasse a um general”, dizia frequentemente, “se ordenasse a um general que se transformasse em ave da marinha e se o general não obedecesse, a culpa não era do general. A culpa era minha.”
O Principezinho, Saint-Exupéry
O Principezinho, logo no início da sua viagem, encontrou um asteróide onde morava um rei. Um rei que gaguejava um pouco e parecia vexado. Um rei sem súbditos, que gostava de ver as suas ordens obedecidas e a sua autoridade respeitada.
Era uma vez a OA. Vivia num asteróide. Mais ou menos ignorada por todos. A um canto, se os asteróides tiverem cantos. Sem ninguém lhe encontrar grande préstimo. Sem ninguém lhe reconhecer grande mérito. Que também gaguejava e parecia vexada, de tempos a tempos. Era má. Vivia sozinha.
Vivia sozinha porque era má. Não era má porque vivia sozinha.
Gostaria de ser obedecida. De ter muitas ordens para dar a muitas pessoas. De ver reconhecida a sua importância. Como aquele rei. Mas está bom de ver: sem súbditos não há rei.
Um dia, lembrou-se de inventar uma regra. Era a calhar: ela gostava de ser obedecida. A partir daquela altura, todos teriam que lhe pagar um tributo. E que lhe prestar tributo. Por nenhuma razão especial. Porque sim. Nem prestou nenhum serviço adicional. Nem deixou de estar sentada no trono do costume. Com a perna cruzada para o mesmo lado. Ajeitando a coroa de vez em quando. Para se garantir que ainda a tinha.
A regra era simples. E as pessoas concordaram. Não queriam incomodar-se. Também é uma regra simples. A rainha foi dando ordens.
E deu-se ares de grande autoridade.Os súbditos foram obedecendo. A rainha entusiasmou-se com as ordens. Os súbditos começaram a desconfiar. As regras complicaram-se para esconder a sua ineficácia. Surgiram dúvidas nos súbditos e as primeiras revoltas.
A rainha perdeu a razão. Se fosse possível perder o que se não tem.
- Farão o que eu quero!
Ficou histérica.
- Agora dez de vocês vão para aquele tribunal! Esperam para ser precisos!
Tira a coroa para puxar os cabelos que lhe restam.
- Quero dez intervenções! Dez relatórios! Dez consultas! € 400!
Bate os pés no chão, bate com as mãos nos apoios do trono.- E vai tudo fazer oral!A rainha lá se mantém no seu trono. Assente num baralho de cartas. À espera de um vento mais forte. E os súbditos vão soprando. À espera de ordens razoáveis. Ou de não ter rei.
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